[Jack Jones’ Diary] Paris, Parte III

[Jack Jones’ Diary] Paris, Parte III

Na terça-feira (11), o Jack compartilhou mais uma edição do Jack Jones’ Diary, com a terceira parte dos acontecimentos em Paris. Para ler as partes I e II. Compartilhamos aqui a postagem original e, abaixo, a tradução livre do texto em português.

O Diário de Jack Jones
Parte III – 26 e 27 de Março
Le Tigre (secret show)
Noite de Poesia com Peter e amigos

Já passou muito da meia noite, mas a noite não acabou. Ah, não. Nos perguntaram, após o nosso set de duas horas se poderíamos fazer um secret show no Le Tigre. Cortesia da inteligente Malina… hora do início do show: 4 da manhã. Parece ótimo pra gente. Nada de descanso de quiser fazer o melhor. Ou algo perto disso.

Nós conversamos e sonhamos, nos desesperamos e filosofamos sobre a vida com os nossos novos amigos parisienses. Se eu fumasse, estaria soltando fumaça teatralmente num Gauloise agora. Depois nós seguimos para a próxima boate, conduzidos pelo destemido e incansável capitão Gary. Nós chegamos lá e vemos uma banda da casa tocando soft rock’n’roll. A boate é muito legal, com cortinas vermelhas de veludo e uma vibe burlesca. Eu fecho os olhos. Meu corpo está desesperado por um pouco de sono. Eu não durmo desde o dia 8 de março. Mas as maravilhosas Beth, Celia Jana, Victoire, Ditte, Charlene e outras belas amigas cujos nomes desapareceram no esquecimento conseguem reacender o meu fogo pela música. E lá vamos nós outra vez. Um set de rock’n’roll furioso. O dono da boate está dançando na frente do palco. O microfone fica quebrando, então a Victoire pega ele e canta uma versão genial em espanhol de “Alcohol Kiss”. Logo são 5 da manhã e eu acredito que o nosso trabalho tenha terminado. Por hoje, pelo menos.

Nós enchemos o ônibus. Estou indo pra casa. Isso até eu receber uma mensagem do Peter dizendo que ele me incluiu num set de poemas e se eu poderia ficar em Paris. Nada de ir pra casa para mim. O show precisa continuar. Eu deixo o pessoal que está voltando para a Inglaterra e fico em Paris para uma noite de poesia e conversas elegantes com o Peter. Eu ando por Paris na primavera. Em vez de ir para todos aqueles museus e galerias de arte cheios de cultura, eu me encontro no McDonalds. Eu fico impressionado com o fato de que na França, eles têm um cheeseburger triplo. Eles só fazem cheeseburgers duplos na Inglaterra. Se essa não é uma razão para continuar na Europa, qual seria? Por que David Cameron não mencionou isso? Eu posso me mudar para a França, apesar de eu não comer carne, só por uma questão de princípios.

A noite de poesia do Peter está atrasada pelo fato de ele estar perdido na sua caravana. Ele me liga dizendo que precisa de ajuda. Sabe Deus o que ele comeu no café da manhã.

Enquanto o Peter tenta encontrar o caminho para fora da caravana, Rafa, Helen, Malina, Maria e Hannah (minha irmã, que se juntou a mim para o fim de semana) fazem uma caminhada até o Moulin Rouge que é vermelho, perigoso e divertido. A cada instante nos oferecem drogas ou sexo ou ambos. É uma noite perfeita. Nós nos encontramos no Sacré-Coeur (significa “coração sagrado”) onde você consegue ver Paris inteira. É lindo e quando nós voltamos, Peter conseguiu sair da caravana e o evento de poesia está sendo remarcada para o dia seguinte num local chamado “Chez Julien”.

O Peter reuniu um grupo estranho, deformado e maravilhoso de artistas e intelectuais. A majestosa Katia está lá e, claro, Malina, com sua câmera em mãos, pronta para capturar os verdadeiros momentos íntimos da vida. Mas nada de flash. Eu conheço a amiga de Peter, Alize, que é uma artista e romancista. Ela fez a capa do primeiro disco solo dele, “Grace/Wastelands” e do “Shotter’s Nation” do Babyshambles. O Peter lê um capítulo do livro novo dela “Ataraxia” e apesar de ser em francês e eu não fazer ideia do que ele está falando, soa bem legal – acho que tem a ver com uma sereia com duas caldas. Mas eu posso estar enganado. É bem provável que esteja.

Como sempre, a noite de poesia vira uma loucura, o Peter e eu cantamos e tentamos apagar velas com as nossas mentes. Isso é obviamente muito difícil. Nós percebemos que não está funcionando. Estão recorremos a encher nossas bocas com água e cuspir nelas. Isso funciona bem. Mas agora estamos no escuro e isso dificulta a leitura de poemas. Finalmente, a festa termina na caravana do Peter e nós dirigimos pelas ruas até ela quebrar. Nesse momento, o Peter decide bater no capô três vezes e, magicamente, ela volta a funcionar. Peter e sua caravana são almas gêmeas, nada pode se colocar entre eles. Nada.

Nós paramos para um jogo rápido de Petanque num subúrbio francês (Petanque é boules, basicamente). Mas eu acabo simplesmente jogando as bolas o mais longe que eu consigo, o que não é o objetivo do jogo, mas é muito mais divertido do que mirar em alguma coisa. E então, voltamos ao “Bem-vindo ao Albion Rooms, fique à vontade” do Peter e a noite acaba por enquanto. Apesar de eu ter tempo pra assistir a Ratatouille em francês. Mas ainda não caiu a ficha. Trem de manhã. Eu finalmente vou pra casa.

Eu acordo de manhã e digo pro Peter que vou sair para pegar o trem. E ele diz: “Ah, você não precisa ir… eu te deixo em Londres depois… eu tenho que ir buscar uma máquina de escrever, de qualquer jeito”. Mas o Peter pega no sono e eu saio para pegar o trem.

Mas é claro que eu perco o trem. E parece que todos os hotéis em Paris estão lotados (pelo menos todos os hotéis que cabem no meu bolso). Então eu vou até à mundialmente famosa livraria artística Shakespeare and Co. pra ver se eles têm um quarto. Lá, eu conheço um dos meus heróis literários – o mundialmente famoso Karl Ove Knausgaard. Ele está dando uma palestra sobre a vida e os livros dele. Eu adoro e consigo tirar uma foto com ele, enquanto sento no colo dele. Eu acho que ele pensa que eu sou desequilibrado e parece ter um pouco de medo de mim. Justo.

De qualquer forma, por um momento, parece que eu vou ficar nessa livraria famosa hoje à noite, onde Allen Ginsberg, William Burroughs, Anaïs Nin ficaram. Mas meus sonhos têm que esperar. De novo. Porque como Nazaré no natal, não tem espaço.

Então eu vago por Paris a noite toda e consigo encontrar um espaço confortável do lado de fora de um Starbucks local. E é ali que eu fico até às 6 da manhã, rabiscando notas e poemas no meu caderninho. Está feio, mas eu me sinto feliz. Eu vejo moradores de rua do lado de fora da estação de trem. Acho que eu não sobreviveria muito tempo aqui, mas uma noite, tudo bem.

O Starbucks me deixa entrar e eu me sirvo com um café e um croissant e finjo ser francês. Eu ponho os poemas em que eu estou trabalhando na minha bolsa. Em pouco tempo, estou no Eurostar. Quando sento na minha poltrona, pisco algumas vezes. Quando olho para fora das janelas densas do trem, eu vejo as colinas da Inglaterra. Uma mistura de chá e sono passeiam pelo meu cérebro e eu fico grato de estar acordando.

Eu desço do trem e tem um repórter da BBC ou da LBC Radio (ou algo assim) e ele me informa que eu sou a primeira pessoa a pôr os pés no país desde que Theresa May acionou o artigo 50. Ele me pediu para descrever como eu me senti em uma palavra… eu checo meu bolso e encontro uma das palhetas do Peter, áspera, irregular e inutilizável. Eu penso na palavra que fez ele famoso e a falo claramente no microfone: “Calças!” – O homem pensa que eu sou louco e me deixa ir embora.

Amor, como sempre
Jack (cheeseburger triplo) Jones
xXx

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