[Jack Jones’ Diary] Paris, Partes I & II

[Jack Jones’ Diary] Paris, Partes I & II

Jack publicou na semana passada mais uma edição do Jack Jones’ Diary, narrando os acontecimentos relacionados aos shows em Paris com TRAMPOLENE e Peter & The Puta Madres. Publicamos abaixo a postagem original no Facebook do TRAMPOLENE e, abaixo, o mesmo texto em tradução livre realizada pelo Albion Station.

O Diário de Jack Jones
PARIS
Parte I – 24 de Março
Palais De Tokyo

A caravana Peter Doherty deixou Lille. Eu puxo a cortina no ônibus de volta e espio o lado de fora da janela. Os prédios são feitos de pedra banda antiga. Romântico / trágico / pra sempre. Eu vejo o Rio Sena ressoando. Eu vejo amantes de mãos dadas e postes com lâmpadas de vapor de sódio. Eu vejo a Torre Eiffel, em toda a sua impressionante vastidão de ferro… Estou de volta a Paris. O que vai acontecer a seguir nessa cidade maravilhosa só podemos imaginar.

Eu me desacredito e me aventuro do lado de fora. Eu vejo a casa para o show desta noite – Palace de Tokyo. Ano passado eu estive aqui como turista, número 2 milhões, olhando para a arte e para a estranheza e a maravilha disso tudo. Nem em minhas visões mais iludidas e delirantes eu poderia ter previsto que eu seria parte de tocar num show esgotado nas asas da elite da arte moderna europeia. A vida prega umas peças legais em mim. Obrigado. Muito obrigado.
O Peter está dormindo há 13 horas. Então, para todos os efeitos, o show de hoje deve ser ótimo, se nós conseguirmos acordá-lo. Eu ando ao longo dos corredores do museu cheio de grafite e vago até o andar de cima, até o camarim. Tem um belo buffet, como sempre. O meu novo favorito é o Crackle Pop. Que é basicamente uma barra de panqueca com molho de chocolate e Maltesers crocantes espalhados por ela. É tão delicioso que eu quero morrer. Eu comi seis sem parar para respirar. Depois passei os 20 minutos seguintes tentando não vomitar. Valeu a pena.

Hoje vai ser uma noite especial para mim porque minha linda irmã vem assistir ao The Puta Madres pela primeira vez. Eu saio para encontrá-la para comer um croissant e tomar um café rapidamente. Nenhum dos dois se compara ao meu Crackle Pop… acho que eu nunca vou superá-lo.

Quando eu volto à casa/museu, o Peter está acordado e de bom humor. Ele escreveu o setlist para o show de hoje e ele contém 14 canções. A plateia já está chegando. Depois eu descubro que o show traz o subtítulo “Marie Claire Festival”. Eu sabia que o Peter tinha um apelo grande, mas não tinha me dado conta que alcançava revistas de moda e beleza femininas. Não tem nada que possa parar o grande homem?

O The Puta Madres entra no nosso abraço em grupo pré-show cantando: “PUTA MADRES, PUTA MADRES”… é lindo o quão próximos nós nos tornamos. Nós somos verdadeiramente uma família. Após uma semana compartilhando um espaço no hotel com o Rafa, nosso baterista excêntrico, em Amsterdam, eu tenho certeza que eu posso sobreviver a qualquer coisa que o mundo me mande. Eu o amo. De verdade. O Peter me dá o sinal e eu entro no palco para tocar a introdução de guitarra de “I Don’t love anyone (But you’re not just anyone)”. Eu adoro tocar essa canção.

O que se segue é uma viagem de rock and roll impressionante, escaldante e gloriosa. Tem uma nova introdução a “The Last of the English Roses” – onde a Katia toca piano de forma pesarosa. Dá arrepios no ar parisiense. Peter embarca numa coreografia de pulos de playground com o fio do microfone. Ele diz que leu que isso faz bem pra saúde na Marie Claire. Tem uma apresentação de uma música nova: “Traveling Tinker Man”. A elasticidade da canção bota todo mundo para pular pra cima e pra baixo. Eu adoro cantar as harmonias com o Drew no refrão… até eu me deixo levar.

Eu vejo rostos conhecidos na primeira fila – Charlie, Jana, Ditte, Helen, Beth, Celia, Pricilla, Victoria. Suas expressões são radiantes. Eu sinto alegria. Finalmente, nós chegamos ao momento “Fuck Forever”. Essa canção transcende todo o resto que já existiu no mundo. O riff de guitarra do Patrick é monumental. Se eu estou indo um pouco longe, você entende o que eu quero dizer. É a bela bagunça de sempre de guitarras e bateria. Peter e eu passamos dois minutos emaranhados nos fios das guitarras. A plateia ruge conforme fazemos nossas reverências. Peter lança a minha guitarra na plateia. Andy Newlove, o leal e extraordinário técnico de som pula atrás dela. Depois Drew mergulha, depois o Peter e depois eu. O palco fica vazio, exceto pela Katia e pela Miki, a asa feminina sensata do grupo. Não tem ninguém na plateia que vá se sentir abandonado. A banda se tornou a plateia e vice-versa.
Depois do show, eu sento no backstage e o Peter cai no sono de novo. Eu estou sentado de frente para o Drew, cuja maestria musical e amizade são inspiradoras. Ele põe John Frusciante no iPod… “Your Pussy is Glued to a Building on Fire” explode pela sela. Eu nunca vou entender por que essa música não foi mais tocada.

Nós cantamos junto o mais alto possível e o mais fora do tom possível para sermos fieis ao espírito da original. Quando eu olho em volta, eu sinto que esses dias podem ser os melhores da minha vida. O Senhor e a Senhora Sorte me selecionaram e estão me dando muito amor e eu estou me esforçando ao máximo para me segurar, mesmo que seja engordurado e escapando como um salmão escorregadio. Obrigado por ficar comigo. Momentos, momentos, vida e romance. Do que eu estou falando? O que mais existe? Não tenho certeza, vou ficar quieto agora.

PARIS
Parte II – 25 de Março
La Mécanique Ondulatoire
Le Tigre (secret show)

Eu acordo para o segundo round da vida de shows do barco dos sonhos em Paris. Mas esse é um caso bem diferente – um barco dos sonhos altamente distorcido do TRAMPOLENE. (Por que eu estou escrevendo “barco dos sonhos” se eu nem sei o que é um? Mas eu quero um)… de qualquer maneira, eu faço uma caminhada ao longo do Sena com a minha irmã. Nós paramos num restaurante pra comer ostras e caracóis. Como os franceses comem essa merda? Eu tenho que cuspir atrás da sebe. Eu vou me encontrar com a galera da TRAMPOLENE antes do show para uma sessão de fotos com a enigmática Malina – Artiste, Rainha da banca de mercadorias do Peter e a musicista da fala.

O pessoal da Trampolene dirigiu a noite toda pra me encontrar. Aparentemente, o Wayne pegou pesado no Buckfast. Ele ficou caçando em tudo quanto é lugar uma loja em Londres que venda. Eu não sei bem se isso é bom ou não, mas ele encontrou uma, para o horror dos seus órgãos internos. Ele estava vagando ao longo do Sena sem dinheiro, telefone ou água, só um maço de cigarros. A Jill, sua princesa irlandesa da yoga contratou uma bicicleta e estava na metade do caminho para Amsterdam. Sabe Deus como conseguimos nos encontrar para o show, ainda mais para a sessão de fotos, mas conseguimos.

De alguma forma, as estrelas se alinham. Nós todos acabamos no La Méchanique Ondulatoire a tempo. A Malina nos fotografa nos bastidores na sala de fumo. Às vezes ela se distrai e para de fotografar a gente e começa a fotografar um garoto aleatório com cabelo castanho bonito. Isso que é criatividade. Mas por falar nisso, o cabelo do garoto era bonito mesmo. Pode ser a melhor foto que ela vai tirar na vida. O impulso criativo pode chegar a qualquer momento. Disso eu sei.

Eu dou uma olhada do lado de fora da casa e vejo uma fila imensa. O Coldplay ou o U2 vão tocar aqui hoje à noite? Não, é pra gente. Eu me sinto lisonjeado e vou agradecer a todos. Nós tínhamos um set list legal, escrito pela Charlene, na porta do nosso camarim. Nós vamos usá-lo como guia para hoje à noite.

São 22h30 e nós devíamos ter subido ao palco há uma hora. Nós vamos para o palco. É difícil passar pela plateia e eu percebo que vai ser uma caverna de suor. A casa parece uma mina subterrânea pequena. É como eu imagino que o Cavern em Liverpool fosse. As luzes se apagam e por um segundo eu penso que estou com os meus ancestrais nos vales galeses. Como a mente faz essas coisas, e tão rápido?

Eu estou suando tanto que tenho que tirar meu casaco depois da primeira música. Eu pensava que isso era um sinal de ser cool, ficar de casaco quando se está com calor e não suar. Acho que eu fracassei nesse quesito. Mas até os diamantes nos meus dedos incrustrados de joias derreteriam ali.

Nós começamos o set com “Artwork of Youth” e as pessoas na França conhecem a letra – eu posso estar num país diferente, mas eu nunca me senti tão bem-vindo e acolhido. Alegria, alegria e mais alegria.

Nós passamos para “It’s Not Rock and Roll”, seguida por “Alcohol Kiss”, seguida por “You do Nothing for Me” e o lugar enlouquece, com crowd surfing e pulos. Quando nós chegamos à terceira canção, eu estou pingando de suor, ferrado e totalmente perdido quanto a qual era pra ser o nosso set, ou qual é o foco da minha vida.
Sentimentos normais.

Por sorte, nós temos fãs incríveis, que, de alguma forma, parecem conhecer as nossas canções melhor do que nós, apesar de estarmos na França. E desse ponto em diante, vira um esquema de “eles gritam, a gente toca”. E nós não vamos embora até cada fã ter ouvido o que queria.
Muita gente maravilhosa subiu ao palco para cantar as canções comigo. Talvez eu pudesse ter cantado mais para as pessoas lá atrás poderem ouvir, mas eu fiquei tão tocado e mexido com as outras pessoas cantando as minhas canções – que de qualquer outro jeito teria parecido errado. Era coisa de sonho. Ouvir as pessoas cantando letras que eu compus no meu quarto às duas da manhã é, certamente, a melhor sensação do mundo. É algo que posso riscar da lista de desejos no amor.

A loucura do show continua. Stage dive após stage dive, casais se beijando, até chegar numa invasão ao palco. Suor pingando do teto como se o andar de cima estivesse inundado. Eu sinto o palco tremendo sob os meus pés, pensei que íamos atravessar o chão e ir parar na Austrália.

Eu toco a última parte do set no meio da plateia e não vejo mais o Wayne nem o Rob em meio a quantidade enorme de pessoas. Eu passo a minha guitarra pros outros. Algumas pessoas estavam tocando solos bem legais, incluindo a Jana e um garoto com uma camiseta do Green Day (qual é o problema do Green Day que eu não consigo me conectar…. talvez seja o fato de eu não ser surdo, hahaha). Eu faço um sinais para o Wayne, apesar de não conseguir vê-lo. Nós tocamos uma última canção antes de eu lançar a minha guitarra pelos ares e o Wayne cair por cima da bateria.
De que outro jeito se termina um show de Rock and Roll?

Jack (pingando de suor) Jones
xXx

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