RESENHA BEAUTIFUL PAIN EP – TRAMPOLENE

RESENHA BEAUTIFUL PAIN EP – TRAMPOLENE

UMA VIAGEM PELO UNIVERSO CRIATIVO DA BANDA TRAMPOLENE

Pouco mais de um mês após o lançamento do single Beautiful Pain, a banda britânica Trampolene lançou na última sexta-feira (7 de julho) o EP homônimo de onde a canção foi retirada, além de dois videoclipes: um para a faixa-título e outro para Saving My Life in A&E, um poema que toca na interseção entre o introspectivo e o social: ao descrever uma ida ao setor de emergência causada por um ataque de pânico, o eu-lírico arrebata sua narrativa com um elogio ao NHS, equivalente britânico do nosso SUS, com a diferença de que lá o sistema parece, de fato, funcionar.

Trampolene, mais do que uma banda, se firma a cada novo lançamento como um projeto artístico de vanguarda. Fundada por Jack Jones, um poeta, cantor, compositor e guitarrista e Wayne Thomas, um pintor, compositor e baixista, ela é um retrato em movimento e expressão da amizade e visão de mundo da dupla, quase irmãos desde seus tempos de infância jogando futebol em Swansea, no País de Gales. A banda vem, desde 2014, surpreendendo seu público e a crítica especializada com novas maneiras não apenas de produzir música de forma independente, mas também de se relacionar com sua base de fãs sem jamais impor barreiras. Sua presença no cenário londrino se define como sui generis desde a forma como a música – e poesia, eixo definidor da banda – em questão é executada e disponibilizada para o público até o discurso subjacente à sua negativa de se deixar assimilar pelo gênero indie music de forma genérica.

Se Sartre alinha a poesia com a pintura, a escultura e a música (em Que é a literatura?), Trampolene se relaciona ainda com a linguagem cinematográfica. Os clipes da banda, em sua maioria dirigidos por Roger Sargent, dizem muito sobre a identidade visual que permeia cada poema ou canção. O som da Trampolene é tão definido pela canção em si quanto pela música dos versos de Jones. A cada novo pocket álbum, um novo poema, que certamente será entoado em uníssono no próximo show da banda pelos leais fãs, que foram contemplados com uma pequena turnê em suas casas no início de 2017.

Em seu sexto EP, ou pocket album, intitulado Beautiful Pain, a banda disponibiliza nas principais plataformas digitais – iTunes, Spotify e YouTube – quatro faixas e, por ora, dois videoclipes, que serão abordados de maneira específica ao longo dos próximos parágrafos.

 

  1. Beautiful Pain


O primeiro registro da canção disponível na internet data de 24 de abril de 2016, em um vídeo publicado no youtube pela usuária stonesprites. Beautiful Pain, além de dar o nome ao EP, é uma canção pungente com letra e solo de guitarra igualmente memoráveis, tendo rendido à banda uma enxurrada de elogios no Twitter e a atenção de diversas rádios britânicas. Definitivamente um ponto alto de Jones como letrista, a poesia da canção gira em torno da urgência do amor quando ainda fresco, recém descoberto. No entanto, é justamente a urgência do eu-lírico (“Vamos acelerar / Porque eu já te conheço / Se a gente fosse devagar / Faria alguma diferença? / É, nossas mentes colidem / E antes que a gente perceba, o sol nasce”) que torna o videoclipe, dirigido por Roger Sargent e lançado simultaneamente com o EP na última sexta-feira, auto irônico e auto referencial. Na narrativa visual, um casal, representado por Jones e Rebecca Foster, aparece em um cenário bucólico emoldurado por um irretocável céu azul. Inicialmente, o clipe parece sugerir uma atmosfera romântica para o subentendido casal. No entanto, após a canção se iniciar, o garoto se fecha inteiramente a qualquer investida ou tentativa de aproximação da garota. Ele se torna absolutamente alheio e insensível a ela, resistindo à sua proximidade (o que parece invocar versos de outra canção da banda Newcastle Brown Love Song “Estou no meu próprio mundo e nunca vou voltar”) e cantando voltado para a câmera. A garota se torna progressivamente mais incomodada e agressiva e, finalmente, o abandona. A auto ironia se estabelece de forma inegável frente à discrepância entre o que o eu-lírico diz sentir e as ações de fato – ou a ausência destas – do que o personagem do clipe. Já a auto referência, como já sugerimos, se deve ao fato do personagem do registro audiovisual invocar, inevitavelmente para aqueles familiarizados com o universo poético de Jones, aquele observado em canções como Newcastle Brown Love Song (Pocket Album #2, 2015) e Letting You Down (The Gangway EP, 2016). Que isso ocorra em uma canção romântica por excelência amplia de forma significativa a auto ironia. No entanto, é interessante observar o surgimento de uma espécie de narrativa nas entrelinhas da comunicação poética e audiovisual da banda. Para tanto, traduzimos abaixo (de forma livre e sem preservar as rimas a fim de manter o significado) um trecho da primeira canção aludida neste parágrafo:

 

Apaixonado pela minha poltrona
E a minha Newcastle Brown
Meu estilo natural
Decepciona todo mundo

Se voce tentar me mover
Eu não vou ceder
Se tentar me conhecer
Não vai conseguir muita coisa

Silêncio e raiva
Abuso e ataque
Estou no meu próprio mundo
E nunca vou voltar
Não sou apenas um tolo
Sou dissimulado, mesquinho e cruel

Só tem espaço aqui
Para cigarros e cerveja

Você continua querendo me amar?
Você continua querendo me amar?

Francamente, querida
Eu não dou a mínima
Se eu morrer amanhã
Você poderia me amar por quem eu sou?

O esforço demasiado do eu-lírico para afirmar e estabelecer seu desapego e se apresentar de forma indesejável à interlocutora parece trair a voz de quem já se machucou demais e tenta se proteger, tendo em vista a questão repetida no refrão: você poderia me amar por quem eu sou?. Da mesma maneira, o personagem do clipe de Beautiful Pain busca se blindar da dor aludida no título e nos primeiros versos da canção – embora afirme que precisa dela – ao se isolar no seu universo interior de canções e romances de Kurt Vonnegut (que a moça ofendida usa para bater nele de forma nada subjetiva). Nada, porém, é capaz de furar a bolha do personagem, que no final do clipe chega à conclusão “loves me not” (uma versão anglófona do nosso bem-me-quer, mal-me-quer) ao arrancar as folhas de uma pequena flor campestre, uma da mesma espécie que pouco antes havia negado à garota. Ele se antecipa à possibilidade da desilusão consolidando sua própria solidão. Letting You Down também trata de uma espécie de blindagem emocional: o eu-lírico anuncia que não irá encontrar a pessoa amada para não a decepcionar. Em meio à subjetividade desse ciclo vicioso emocional, resta questionar qual seria o real mito de origem da impermeabilidade do eu-lírico de Jones: ele se antecipa à dor se fechando às possibilidades do mundo exterior e por isso mesmo se fere ou seria devido à exaustão emocional de experiências passadas que ele não se permite sair do mito de si próprio que criou? O discurso parece sugerir que, de alguma forma, ele anseia que lhe provem estar errado, que há amor fora da bolha, mesmo que esse traga alguma espécie de dor poética também.

  1. She Sits with Me

Não acompanhada por um videoclipe – por enquanto – a canção foi ilustrada nos cartazes de divulgação do lançamento do álbum com fotografias de dois cachorros em oportunidades diferentes (que podem ser visualizadas aqui e aqui), imagem que certamente será retomada futuramente pela banda. Em um arranjo acústico de voz e guitarra, o eu-lírico de Jones apresenta uma visão plenamente sincera de um típico relacionamento pós-moderno recheado de tentativas, pequenos confortos e alegrias agridoces na presença do outro em meio a dias difíceis e incertos:

“Não posso fazer um estardalhaço
Sobre nós dois
E eu ainda não sei
Pra onde vamos daqui”

 

Em tempos de baladas fáceis e repetitivas, a voz de Jones, tanto a que ecoa segura em meio à insegurança quanto a que forja universos poéticos, é um alento bem-vindo e sempre surpreendente.

  1. Saving My Life in A&E


Apresentado pela primeira vez ainda em seus rascunhos iniciais em março de 2017 no Trew Era Café em Londres, Saving My Life in A&E é um poema de Jack Jones que faz um movimento interessante da subjetividade interior da mente do eu-lírico atormentado por um severo ataque de pânico para a percepção e reafirmação do valor social do NHS (National Health Service, ou Serviço Nacional de Saúde, o sistema de saúde pública britânico), atualmente ameaçado de privatização por corporações americanas na curiosa e muito criticada pela esquerda – especialmente por Jeremy Corbin – interlocução entre Theresa May e Donald Trump.

O ritmo febril do poema permeado por repetições do vocativo Jack acompanha as ondas mentais da crise de pânico do eu-lírico, uma mostra da maestria com a qual a forma se torna uma ferramenta a serviço do significado. Nesta sintonia irreprensível, as rimas e transições se tornam mais sutis na medida em que os sintomas são amainados pela medicação prescrita pelo “Dr. Jeremy”, desaguando na percepção tranquila e racional do valor de um sistema público de saúde de qualidade. Tendo em vista o momento tenso no cenário político britânico pós-Brexit, a voz de Jones se torna ainda mais necessária ao declarar:

Eu sei que é uma merda pagar imposto
Mas eu me sinto abençoado
Que o nosso ameaçado serviço de saúde
Seja o melhor da nossa nação

  1. Please, Please, Please, Let Me Get What I Want

A releitura do clássico da banda The Smiths, (lançado originalmente como B-side de “William, It Was Really Nothing” em 1984) pela Trampolene já é conhecida de longa-data de frequentadores dos shows da banda. Também tocada em um arranjo voz e guitarra, a faixa ajuda a pontuar o tom do EP e toma forma numa interpretação crua e honesta na voz de Jones, garantindo que o ouvinte sinta a vontade inevitável de voltar à primeira faixa e reiniciar sua pequena viagem musical pelo universo poético de uma banda que jamais decepciona seus fãs – antigos e novos – e que, repetida e frequentemente demonstra todas as razões que fazem dela uma voz essencial na nossa estranha, confusa e desconexa geração perdida. Vida longa a Jack Jones, Wayne Thomas e Rob Steele.

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Beautiful Pain – EP
Trampolene
Gênero: Indie Rock
℗ 2017 Jack Jones and Josh Green

Disponível em:

https://itunes.apple.com/gb/album/beautiful-pain-ep/id1239367002?app=iTunes

https://open.spotify.com/artist/28KtnfdwBHptsGPPWjeovU

http://www.trampolene.co.uk

 

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